A cultura dos carros está em declínio. Estudos apontam que países como Canadá, Estados Unidos, Japão, Austrália e outros países europeus vem observando uma redução nos números carros nas ruas, nos números de licenças e nas distâncias médias percorridas por veículos.1 Estamos vivendo uma mudança cultura de longo prazo: entre a geração dos millenials um carro não define mais o status social de uma pessoa.

A recessão econômica dificultou a compra de veículos próprios e os custos para comprar, utilizar e manter um veículo próprio sobem e subiram muito. Ao mesmo tempo, os efeitos da vida sedentária são refletidos em nossa sociedade, e o crescimento da ubiquidade da internet tem facilitado o desenvolvimento de formas mais flexíveis de compartilhamento de viagens e veículos, além de conectar e trazer informações em tempo real às pessoas.

Como uma resposta ao desejo latente de desenvolvimento urbano sustentável, vem-se verificando esforços no planejamento urbano no sentido de redução do tráfego nas cidades e favorecimento dos modos ativos de deslocamento. A necessidade de ruas mais habitáveis, saudáveis, e completas para todos está aumentando drasticamente a centralidade da caminhada no discurso urbano, principalmente ligado à atividades físicas e bem estar. Além do valor que as caminhadas assumem na ideia de uma interação multi-sensorial e uma experiência social.

As cidades ao redor do mundo estão começando a perceber que por colocarem mais pessoas para caminhar e reduzir o número de veículos motorizados nas ruas, elas vão ter cidadãos mais saudáveis e felizes, ruas mais prósperas e espaços públicos mais vívidos. Porém quais as tendências que estão por trás dessas mudanças dos estilos de vida?

Motivadores à uma cidade mais caminhável

1. Motivadores sociais

Novos padrões demográficos, como populações em envelhecimento e a diminuição do tamanho das famílias, estão mudando rapidamente e fundamentalmente a forma como as pessoas querem viver e interagir com suas cidades. Isso leva a um aumento na necessidade por experiências sociais, com viés de evitar o isolamento e a exclusão social, o que pode ser exacerbado pela necessidade de segurança. A concentração dos serviços, estabelecimentos de entretenimento e oportunidades de socialização nas cidades, proporciona a exploração de opções locais e aumenta as possibilidade de encontros espontâneos e atividades informais.

A tendência de urbanização e densificação urbana, impulsionada pelo crescimento do desejo de vivenciar as cidades, está mudando a forma como as pessoas vivem e se movimentam pelas cidades. Possuir um veículo próprio está caro e engarrafamentos podem tornar a solução de deslocamento individual motorizado ineficiente e estressante. Estudos mostram que a felicidade pessoal diminui a cada milha experienciada de engarrafamentos.2 Além disso, o veículo próprio está deixando de ter significado de no status social principalmente entre os jovens, enquanto dispositivos móveis estão cada vez mais no centro das nossas vidas digitais. Assim, muitos estão optando por evitar carros para se deslocar a pé, de bicicleta ou transporte público, além de buscar viver próximo ao local de trabalho ou realizar home office, decisões influenciadas por questões de saúde e sustentabilidade. Similarmente, os deslocamentos por modos ativos estão em crescimento, como uma forma de evitar a inatividade e reduzindo riscos de adoecimento e stress social por viver em megacidades em crescimento.

Motivadores sociais: Veículos próprios, padrões demográficos, estilos de vida digital, cidade emocional, cidades fortalezas, saúde pública, comportamentos sustentáveis, desigualdade urbana, espontaneidade urbana, e estresse urbano.


2. Motivadores tecnológicos

Tecnologias digitais sempre presentes formam uma camada de dados, interação e personalização que está uniformemente e virtualmente disponível entre todas as atividades urbanas. Sistemas inteligentes possibilitam a comunicação entre diferentes modos de transporte de forma abrangente, fortalecendo a verdadeira integração em soluções de transporte e experiências. Planejadores urbanos buscam facilitar viagens multi-modais, incluindo opções como a caminhada e o ciclismo, enquanto conectividade constante e o crescimento do interesse pessoal em saúde e valorização do próprio ser estão levando a uma preferência por deslocamentos ativos. Entretanto, saúde pessoal e bem estar não são os únicos motivadores que tem colocado as pessoas para se movimentar, a gameficação está oferecendo incentivos reais como a monetização através de benefícios monetários e descontos.

Graças a novas tecnologias, o espaço físico das cidades estão mudando também. Com sensores e cloud computing se tornando cada vez mais acessíveis e amplamente disponível, ruas estão se tornando mais inteligentes e mais interativas. Agora a cidade pode monitorar e analisar o nível de atividade das pessoas, favorecendo ativamente caminhadas e rotas de ciclismo, bem como criar uma camada de jogos e diversão nas ruas através da tecnologia. Além disso, as novas formas de mobilidade autônoma estão crescendo e podem radicalmente mudar a forma como nos deslocamos no futuro próximo e reduzir a necessidade por infra-estruturas rodoviárias.

Motivadores tecnológicos: Veículos autônomos, disponibilidade de sensores, big data, comunicação e compartilhamento, conectividade constante, informação digital, Wi-Fi público gratuito, incentivos gameficados, rua interativa, mobiliário urbano, e valorização do próprio ser.


3. Motivadores econômicos

O desenvolvimento de uma economia global, não impacta apenas a forma como as pessoas ganham e gastam dinheiro, mas também a forma como elas vivem. O princípio de uma economia digital propicia viagens mais distantes, o que aumenta a pressão em formas de deslocamento mais livres e confiáveis. Os modelos tradicionais de propriedade estão mudando, hoje em dia buscamos ter o acesso e não necessariamente possuir (p.ex. Netflix e Spotify), e a prestação de serviços peer-to-peer (p.ex. Airbnb e Uber), têm mudado as cidades ao redor do mundo. Uma rápida mudança de negócios baseados em produtos para negócios baseados em serviços está gradualmente atingindo a forma como nos deslocamos nas cidades, como o aluguel de bicicletas e car-sharing. Esse fatores têm coletivamente reduzido a dependência em veículos privados e aumentam a flexibilidade e disponibilidade do transporte multi-modal, incluindo a caminhada.

Enquanto formas flexíveis de mobilidade são mais acessíveis para os usuários, as formas de deslocamento ativo tem o potencial de reduzir os custos com saúde pública e os custos dos congestionamentos para as pessoas e os governos. Consequentemente, os governos federais, estaduais e municipais tendem a apoiar políticas públicas e a regeneração urbana, visando um aumento das soluções para o deslocamento ativo, enquanto desincentivam o uso do carro, além de criarem formas de incentivar a economia local e a criação de oportunidades de emprego. Os investimentos em espaços públicos pode ser um catalisador para a regeneração urbana, pode revitalizar áreas urbanas abandonadas e reconstruir a base econômica de uma cidade.

Motivadores econômicos: Custos de congestionamento, economia digital, compartilhamento de ideias, regionalização de produtos, custos de saúde, recessão econômica, economia de compartilhamento, turismo, desemprego, regeneração urbana.


4. Motivadores ambientais

A preocupação com o meio ambiente é um dos motivadores mais recetes e mais diretos para o aumento da caminhada e dos deslocamentos ativos. Enquanto indivíduo não podem efetivamente controlar ou afetar diretamente outros fatores de impacto no meio ambiente, a forma como se desloca é um começo simples e fácil. De mudanças climáticas à poluição do ar, de perda de biodiversidade às infra-estruturas verdes, a caminhada proporciona uma forma ativa de mitigar e reduzir os impactos locais e globais no meio ambiente.

Muitas medidas de redução de impacto deverão focar em áreas urbanas. Através da mudança do foco dos carros para as pessoas, o planejamento urbano e de trasnporte pode reduzir impactos e prover o desenvolvimento de uma economia sustentável. Ao invés de eficiência rodoviária, de estacionamentos e de poluição, as cidades buscam tornar seu ambiente mais ativo, natural e vívido. As cidades ao redor do mundo já estão vivenciando vários benefícios da criação de espaços para caminhadas, infra-estruturas verdes, praças e parques, incluindo a gestão da drenagem urbana, a captura de carbono e a mitigação de enchentes.

Motivadores ambientais: Transporte ativo, poluição do ar, alterações climáticas, descarbonização, consumo eficiente de energia, infra-estrutura verde, ilha de calor, padrões de uso da terra, perda de biodiversidade, e segurança de transporte.


5. Motivadores políticos

Mudanças climáticas, choques energéticos, crises ecônomicas, e insegurança política continuam a fomentar a insatisfação pública e o ativismo político. Enquanto as cidades enfrentam ameaças crescentes, soluções geradas por comunidades locais estão se tornando mais comuns na construção de cidades confiáveis e resilientes. As mídias sociais estão popularizando novas possibildiades de engajamento social. De iniciativas de crowdsourcing até formas de autodeterminação e revoltas, as pessoas de todo o mudo estão se tornando mais ativas no envolvimento com suas cidades e tomada de decisões locais, esforçando-se por processos de planejamento mais inclusivos. A mobilidade ativa, a habitabilidade e os espaços públicos estão no topo da lista de prioridades para muitos e, posteriormente, também chegam ao topo das prioridades das cidades.

Em um palco global cada mais aberto e competitivo, as cidades são levadas a demonstrar sua liderança, especialmente em termos de políticas ambientais e inovação. Uma forte liderança municipal fornece visibilidade, legitimidade e poder de decisão para a governança da cidade. Caminhar é um assunto cada vez mais presente nas agendas dos políticos e planejadores municipais, na luta pela redução dos veículos próprios, dos congestionamentos, e da poluição, enquanto se busca uma comunidade mais segura, mais saudável e mais vibrante de moradores e visitantes. Uma consciência crescente em torno do papel fundamental do espaço público está levando as cidades a atualizar regulamentos antiquados baseados em carros em favor de uma visão mais holística da mobilidade e do acesso. Essas e outras políticas estão ativamente tentando levar as pessoas de volta para as ruas.

Motivadores políticos: Competitividade entre cidade, consciência coletiva, política verde, liderança, micro-soluções, integração de políticas, privatização, espaço público, stakeholder interessado, parcerias público-privadas, resiliência urbana.


No post anterior discutimos o porquê de se querer cidades mais caminháveis, em breve mais postagens a respeito desse tema.


1 Are we reaching ”peak travel”? Trends in passenger transport in industrialized countries, by Adam Millard-Ball and Lee Schipper. 2010. Link.

2 Commuting and Personal Well-being, by Office for National Statistics. 2014. Link.

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